Sistema Tático: Junior Câmara revela busca constante por resgatar e implantar conceitos da essência do futebol brasileiro, destaca o trabalho realizado pelo Sport nas categorias de base e afirma:"O futebol brasileiro precisa de pessoas que tenham conhecimento e coragem para realizar as suas ideias"

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Foto:Williams Aguiar/Sport Club do Recife

Estudioso, articulado, persuasivo, corajoso e convicto, o técnico Junior Câmara vem sendo destaque no comando das equipes de base do Sport. Desde que começou a treinar o Sub-13 em 2013, Junior foi promovido ano após ano até chegar no Sub-20 em 2016. Na temporada passada comandou os "meninos da Ilha" na caminhada até a final da Copa do Brasil sub-17. O time rubro-negro conseguiu elimininar Bahia, São Paulo, Flamengo, Fluminense, ficando com o vice-campeonato ao ser derrotado pelo Corinthians na final. Mas o fato de chegar a final da Copa do Brasil e eliminar times com tradição nas categorias de base não foram os principais feitos dos pernambucanos. O mais importante foi a forma como isso tudo aconteceu. O time comandado por Junior Câmara apresentou conceitos modernos, jogava um futebol vertical, apoiado, com perde-pressiona instantâneo, zagueiros construindo as jogadas, pontas jogando por dentro, laterais atuando como volantes, marcando com linhas altas... E esse futebol foi capaz de levar ao estádio da Ilha do Retiro milhares de pessoas ansiosas para torcer pelo time de coração, mas principalmente, atraídas para ver de perto o time que transpirava a essência do futebol brasileiro, tão falada mas pouco praticada em um país que outrora foi o pioneiro. 

A notoriedade e admiração conquistadas com as boas apresentações na Copa do Brasil Sub-17 aumentaram o "sarrafo" e, trouxeram embutidas pressões e cobranças por um desempenho superior ou, ao menos, similar ao realizado anteriormente na competição nacional. Junior Câmara revelou que tem total confiança da gestão do Sport nessa nova etapa profissional, que colocou a sua vida profissional em risco para encantar o Brasil ao resgatar a essência do futebol brasileiro e se emociona ao falar do jogo contra o São Paulo.

"Apesar dos resultados não virem neste início de trabalho, os gestores estão considerando o trabalho de alto nível. A busca pela essência do futebol brasileiro, foi  um fator que impulsionou a virar treinador e não vou abandonar as minhas ideias e convicções. Se as pessoas falassem que o meu trabalho foi muito bom apenas porque foi vice-campeão da Copa do Brasil Sub-17, não estaria pleno, tendo em vista que muitos conseguiram ser campeões da competição com um futebol paupérrimo, sem formar ninguém e apenas de uma forma utilitária. O que me traz felicidade não é ser vice-campeão da Copa do Brasil, mas sim, o fato de que conseguir jogar com as melhores equipes do país e meu time fez 24 gols. E sabe-se que o Sport nas categorias de base não era referência no cenário nacional e marcamos 24 gols contra Flamengo, Fluminense, São Paulo, Bahia e Corinthians. Além disso, colocamos de forma inédita 4 jogadores de uma mesma equipe na seleção brasileira da categoria. Vou além, atrair 24 mil torcedores para assistir um jogo de Sub-17 à noite... isso só me diz uma coisa: ‘eles tinham prazer de ver aquele time jogar’. E isso até hoje me emociona. Porém, sei que o sistema é opressor, sou oprimido todos os dias por querer inovar e implantar ideias novas. Mas tenho lutado com todas as forças, pois a cada 1 pessoa, 100 mil vão defender o seu próprio trabalho e não vão assumir riscos. E coloquei a minha vida em risco para poder fazer 24 gols. Podia ter tomado 10 gols do São Paulo na Ilha, mas tentei virar o jogo e conseguimos vencer por 5 a 4", desabafou com os olhos cheios de lágrimas.

Recém promovido ao Sub-20, o treinador rubro-negro tem como filosofia norteadora de trabalho uma citação de Guardiola. Para Junior, no Brasil existem bons profissionais, porém quando estão sob situações de risco deixam as suas ideias e convicções de lado para executarem ideias de senso comum e permanecerem no cargo.

"Uma citação de Pep Guardiola traduz bem o meu sentimento:'Perca com as suas ideias, não perca com as ideias dos outros'. O que falta ao Brasil hoje são pessoas com coragem. Nos times de base dos times brasileiros nós temos grandes treinadores. Tenho amigos que não devem a ninguém da Europa, mas que quando chegam em uma situação crítica não têm a coragem de segurar as suas próprias ideias", afirmou Junior Câmara.

Em alta, base do Sport aos poucos vai retomando espaço perdido no cenário brasileiro - liderada pelo Gestor Executivo das categorias de base, Genivaldo Cerqueira - fruto de uma boa gestão, um planejamento estratégico minucioso e bem executado, juntamente com profissionais de qualidade. O efeito pode ser visto no ótimo desempenho dos leoninos nos campeonatos de base e também nas convocações para as seleções de base. Na temporada passada o Leão conquistou o Campeonato Pernambucano em todas as categorias (Sub-13,Sub-15,Sub-17 e Sub-20), além disso conseguiu a melhor campanha na Copa São Paulo (5º posição), semi-finalista da Copa do Brasil Sub-20 e vice-campeão da mesma competição na categoria Sub-17. Na visão de Junior Câmara, o Sport tem colhido os frutos por realmente apresentar um trabalho voltado para formção de atletas.

"A formação de atletas do Sport é diferenciada. As bases do Sul-Sudeste do país possuem um trabalho mais facilitado, devido a contratação de jogadores. E aqui no Sport, não compramos jogadores. Nós recrutamos jogadores de regra geral Nordestinos, com problemas educacionais e com níveis de desnutrição e vamos formá-lo do zero. Eu diria que o trabalho de base do Sport, é realmente um trabalho na essência de base. No Sul-Sudeste o trabalho de base é misturado com o de alto rendimento", destacou o treinador.

Nessa entrevista exclusiva ao Blog Lugar de Esportes, Junior Câmara ainda falou sobre como surgiu a vontade de trabalhar com futebol, as ideias e conceitos de jogo que visa implantar no Sport Sub-20, a diferença entre ideias ricas e pobres, necessidade de técnicos e jornalistas estudarem, gestão dos clubes brasileiros, caminhos para manter a identidade do futebol brasileiro, formação de jogadores, o potencial do atacante Juninho, experiência na seleção brasileira e teorias acadêmicas. Além disso, revelou que considera Fernando Diniz, Pep Guardiola e Jorge Sampaoli os seus mentores futebolítiscos. 


Confira a entrevista na íntegra abaixo:


Da campanha da Copa do Brasil Sub-17 para cá, você ganhou notoriedade com a torcida. Porém, como iniciou isso tudo? Como surgiu a vontade de trabalhar com futebol? Como foi essa escolha?
Tem um livro hoje que é fundamental para mim: “Futebol jogado com ideias”, do Professor Israel Teoldo. Fiz a Pós-Graduação com ele na Universidade de Viçosa em Minas Gerais e, hoje é um amigo pessoal. A gente já discutiu muito sobre isso, pois o futebol é uma expressão cultural e nasce de ideias. Ideias estas, que vão diferenciar uma pessoa da outra. Eu nasci em Casa Amarela, bairro muito humilde e que tinha muitos campos de várzea. E desde pequeno estava inserido em um contexto que contemplava tanto o futebol quanto os campos de várzea. Naquela época o futebol brasileiro ainda trazia muito da sua identidade na década de 1980. Fui um torcedor que acompanhei aquele futebol e ele sempre me motivou a estar neste esporte de alguma forma. Porque aquilo diferenciava o meu país de qualquer outro no mundo. Aquela identidade era uma expressão cultural, que era expressada através de um esporte, mostrava a nossa liberdade, a criatividade, o jeito brasileiro de resolver as coisas. E eu determinei que queria trabalhar com futebol. Tentei ser jogador, joguei pela Universidade e pratiquei Futsal por um tempo. No nível profissional tentei jogar nos grandes clubes de Pernambuco, mas não consegui. E por não querer me submeter a jogar em equipes menores, então decidi estudar para ser preparador físico, treinador ou qualquer outra coisa relacionada com o futebol. Fiz quatro anos e meio de Licenciatura em Educação Física na Universidade de Pernambuco (UPE). Comecei a estagiar em equipes de Futsal como Preparador Físico. Naquele tempo existia uma “regra cultural” que para ser treinador tinha que ser ex-jogador. Passado um ano, as pessoas que trabalhavam comigo começaram a externar que eu tinha o perfil para ser treinador. Foi quando comecei a comandar algumas equipes de Futsal, até que em 2011 fui eleito o melhor treinador do Estado de Pernambuco na modalidade. Em seguida recebi uma proposta do Sport para assumir o time Sub-13 de campo, aceitei e hoje estou no Sub-20. Mas o que me motivou a ser treinador foi aquele futebol (da década de 1980) que era praticado. Se eu não consigo praticar aquele futebol, eu não me sinto pleno. Por mais que eu consiga vencer uma partida de futebol e, é possível vencer com ideias pobres.

Em 2016, comandando o Sub-17, o Sport fez uma campanha histórica. Vice-campeão, tendo o melhor ataque, 4 jogadores convocados para a seleção brasileira da categoria. Afinal, dá para conciliar a alta competitividade que busca resultados em qualquer competição disputada e a formação adequada dos jogadores jovens?
Dá para fazer sim! Mas temos que entender que na base é bem possível que isso não aconteça com certa regularidade. Vou te dar um exemplo prático: o meu time Sub-17 foi todo desmontado. Muitos foram para o Profissional e outros foram negociados e aqueles jogadores que atuavam no terço final de campo não fazem mais parte desse elenco. Hoje, nós não temos atletas naquelas características, mas mesmo assim continuo tentando treinar os atletas para propor o jogo. Entretanto, tenho encontrado muitas dificuldades pois estou jogando com equipes que se aproveitam dessa forma na qual jogo e descem as linhas, diminuem os espaços do campo e jogam no contra-ataque por uma bola e ganhar de mim por 1 a 0. E todo mundo vai dizer que ele é melhor que eu. Mas se você tiver uma gestão com clareza, ela vai dizer que não interessa o resultado, mas sim, os jogadores formados com qualidade.

Foto: Williams Aguiar/Sport Club do Recife
Ele não é o monstro que muitas pessoas quiseram desenhar. E se ele alcançou muitas metas com apenas 18 anos, o que esperar quando atingir o auge da maturidade? O topo. Claro, se tudo caminhar como vem caminhando.

O Sport Sub-17 tinha um conjunto extremamente azeitado, organizado e que saltava os olhos a qualidade com e sem a bola. Mas individualmente um jogador se destacou dos demais: Juninho. Sendo responsável por uma parte da formação do atacante, como você avalia as características, o potencial e o crescimento do atleta ao longo destes anos no Sport?
Eu criei uma cobra. Pois depois que se revela Juninho ninguém vai querer menos que isso, né?! (risos). Mas na verdade para que acontecesse a revelação de Juninho não teve apenas a minha intervenção, e sim, diversos fatores desde a realização das observações com o nosso Observador Técnico, João Maradona, até os trabalhos sob a minha supervisão. Quando Juninho chegou aqui era um jogador que detinha muito potencial, apenas dei estímulos a ele. E o atleta comprou a ideia. Ele é um atleta que dificilmente se encontra. Um jogador desse nível vai chegar em um clube de futebol a cada 2,3 anos. Ele tem características de meia e de atacante e é muito raro se encontrar isso. Ele é um jogador praticamente completo. A única dificuldade que ele apresentava era na recuperação da bola após a perda e no Profissional já teve uma melhora acentuada. Ofensivamente nunca treinei ninguém igual. E olhe que estou no futebol há 19 anos. O potencial desse garoto é absurdo! Porém é necessário ter cuidado para não exigir tanta responsabilidade de Juninho como se ele fosse um jogador maduro, pois ele completou 18 anos recentemente. E a maturidade média de um atleta está em torno dos 23 anos. O poder acentuado de decisão e finalização que ele possui nos mostra que realmente é uma joia rara a ser bem cuidada. E não tenho dúvida que vai trazer muitas glórias para o Sport. Anteriormente ele cometeu atos de indisciplinas, mas vejo hoje uma pessoa diferente, que, aprendeu a viver em coletividade, que é respeitador, solidário.... Isso é um processo natural do ser humano e à medida que ele vai evoluindo, vai entendendo a sua responsabilidade. Ele não é o monstro que muitas pessoas quiseram desenhar. E se ele alcançou muitas metas com apenas 18 anos, o que esperar quando atingir o auge da maturidade? O topo. Claro, se tudo caminhar como vem caminhando.

Cada dia mais os jogadores de base têm ganho salários astronômicos, antes mesmo de chegarem ao profissional. E isso de alguma forma influencia o psicológico. De uma forma geral como você observa esse cenário? E o quão necessário é se ter um trabalho educacional forte e um acompanhamento psicológico com esses garotos para que eles não se percam antes de chegarem ao time profissional?
Não tem como falar de futebol sem falar de cultura, sociedade e indivíduo. Antes de tratar do tema futebol é preciso entender como é a cultura brasileira, como esse indivíduo é formado e em que nuances a formação dele acontece. Normalmente o jogador de futebol brasileiro é formado em ambientes de classe social baixa. Outro problema é que em alguns casos eles não têm nem a mãe e nem o pai presente. Eles são criados nas ruas, soltos, com liberdade e aprendendo o futebol de rua. E em muitos casos esses meninos vão aprendendo coisas que não seriam boas para eles aprenderem nesse período. A gente sabe que a rua traz coisas boas, mas traz também coisas ruins. Ele vai ser formado em um ambiente, onde a capacidade motora dele vai ser mais desenvolvida do que a média. Tendo em vista que a média não é criada na rua, e sim, composta de crianças mais “presas” que buscam escolinhas para jogar futebol. Já o menino que é criado em uma comunidade – ambiente mais simples – consegue explorar o seu corpo de uma forma riquíssima. E isso faz com que ele crie um autoconhecimento do próprio corpo acima da média e de posse desse conhecimento à medida que ele vai tendo contato com qualquer esporte, ele vai tendo facilidade em aprender aquele esporte pois o corpo dele já experimentou muitos movimentos. Só que atrelado ao desenvolvimento acima da média e o destaque quase que instantâneo vem a admiração das pessoas de onde ele vive. As pessoas já o tratam diferente e oferecem coisas, muito em virtude dele trazer benefícios de alguma forma. O pai e a mãe geralmente são muito pobres e começam a ver no filho uma possibilidade de mudar de vida e isso acontece de forma padrão com os meninos que tenho aqui no Sport. Se eu tenho 40 atletas, 35 possuem essa mesma história. Então, desde pequeno ele tem pai, mãe, irmão, tio, tia, primo, tudo em cima dele e vendo-o como a salvação para todos os problemas da família. Desde cedo ele é visto como um adulto em miniatura que vai gerar renda. Então o que o pai e a mãe puderem fazer para que ele seja jogador, eles vão fazer. Por exemplo, não fazer questão que o menino vá a escola. Pois no pensamento deles o menino não precisa ir para escola, precisa apenas jogar futebol e ganhar dinheiro. E se o jovem tem um ato de disciplina e é retirado do jogo ou treino, os pais querem-no tirar do clube. Pois para eles o filho não está no clube para ter uma formação, mas apenas, para ser jogador. E a própria família e o empresário transmitem esse pensamento ao atleta. O treinador em contrapartida está amarrado no processo, pois quer disciplinar, mas se ele assim o fizer pode ser chamado a atenção porque aquele jogador é o diferente do time. Com isso, esse jogador vai entendendo que ele tem uma proteção e vai desrespeitando todas as pessoas até chegar no profissional. No Sport é diferente, temos uma estrutura muito boa e que nem todos clubes possuem. Os atletas possuem acompanhamento dos psicólogos todos dias, temos Assistente Social nas escolas realizando um acompanhamento completo dos atletas. E caso ele falte a aula a Assistente saberá, nos repassará e o jovem não realizará o treinamento. Se algum problema for identificado com o atleta, a família é prontamente chamada para ter uma reunião com a Assistente Social e o Psicólogo do clube. Além disso, os jogadores têm acompanhamento de nutricionistas, dentistas, médicos... O Sport tem uma estrutura, mas que não é a realidade do país. Acredito que, se muito, 20% dos clubes possuem uma boa estrutura para os jovens.

Foto: Sport Club do Recife
Hoje eu posso dizer que a gestão do Sport é diferente. E o próprio gestor executivo das categorias de base, Genivaldo Cerqueira, afirmou que o clube não quer resultado, e sim, grandes jogadores como tenho levado ao Profissional
Como funciona o pensamento da Gestão das categorias de base do Sport no que tange ao modelo de jogo implantado? Eles têm dado liberdade para você implantar as suas ideias ou a cultura do imediatismo tem te forçado a abandonar as suas ideias? 
A formação de atletas do Sport é diferenciada. As bases do Sul-Sudeste do país possuem um trabalho mais facilitado, devido a contratação de jogadores. E aqui no Sport, não compramos jogadores. Nós recrutamos jogadores de regra geral Nordestinos, com problemas educacionais e com níveis de desnutrição e, vamos formá-los do zero. Eu diria que o trabalho de base do Sport, é realmente um trabalho na essência de base. No Sul-Sudeste o trabalho de base é misturado com o de alto rendimento. Hoje eu posso dizer que a gestão do Sport é diferente. E o próprio gestor executivo das categorias de base, Genivaldo Cerqueira, afirmou que o clube não quer resultado, e sim, grandes jogadores como tenho levado ao profissional. Mas a gente sabe que ao redor dos gestores existe uma cultura do resultado muito pesada por parte da imprensa e torcedores. Não é uma relação fácil. Apesar dos resultados não virem neste início de trabalho, os gestores estão considerando o trabalho de alto nível. A busca pela essência do futebol brasileiro, foi  um fator que impulsionou a virar treinador e não vou abandonar as minhas ideias e convicções. Se as pessoas falassem que o meu trabalho foi muito bom apenas porque foi vice-campeão da Copa do Brasil Sub-17, não estaria pleno, tendo em vista que muitos conseguiram ser campeões da competição com um futebol paupérrimo, sem formar ninguém e apenas de uma forma utilitária. O que me traz felicidade não é ser vice-campeão da Copa do Brasil, mas sim, o fato de que conseguir jogar com as melhores equipes do país e meu time fez 24 gols. E sabe-se que o Sport nas categorias de base não era referência no cenário nacional e marcamos 24 gols contra Flamengo, Fluminense, São Paulo, Bahia e Corinthians. Além disso, colocamos de forma inédita 4 jogadores de uma mesma equipe na seleção brasileira da categoria. Vou além, atrair 24 mil torcedores para assistir um jogo de Sub-17 à noite... isso só me diz uma coisa: ‘eles tinham prazer de ver aquele time jogar’. E isso até hoje me emociona. Porém, sei que o sistema é opressor e sou oprimido todos os dias por querer inovar e implantar ideias novas. Mas tenho lutado com todas as forças, pois a cada 1 pessoa, 100 mil vão defender o seu próprio trabalho e não vão assumir riscos. E coloquei a minha vida em risco para poder fazer 24 gols. Podia ter tomado 10 gols do São Paulo na Ilha, mas tentei virar o jogo e conseguimos vencer por 5 a 4 (com os olhos cheios de lágrimas). Uma citação de Pep Guardiola traduz bem o meu sentimento:'Perca com as suas ideias, não perca com as ideias dos outros'. O que falta ao Brasil hoje são pessoas com coragem. Nos times de base dos times brasileiros nós temos grandes treinadores. Tenho amigos que não devem a ninguém da Europa, mas que quando chegam em uma situação crítica não têm a coragem de segurar as suas próprias ideias. 

Um clube de futebol estruturado como o Sport deve ter um modelo de jogo definido que se reproduz em todas as suas categorias, das escolinhas até as suas equipes profissionais? Você acredita que falta ao Sport ter essa identidade e tentar replica em todas as suas categorias?
No Brasil não tem como replicar o modelo que é realizado na Europa. Na Europa ele dá certo porque as coisas são determinadas pelos próprios clubes, então o treinador do profissional é contratado para executar o que foi planejado. No Brasil é diferente. O técnico é contratado para criar o modelo, ou seja, ele vai planejar e explanar as diretrizes a serem executadas para que haja a execução do modelo proposto. Por isso, no Brasil não tem como. A base vai formar um jogador seguindo um estilo de jogo e quando chegar no profissional o treinador vai dizer que está tudo errado. Então o que resta a formação de base do Brasil é disponibilizar uma formação o quanto mais vasta possível para o atleta. Com isso, eu não posso ficar restrito a um modelo de jogo. Portanto, tenho que ensinar o meu atleta a sair jogando, mas também a brigar pela segunda bola pois pode acontecer de ele ser vendido para um mercado que tenha essa proposta. Ou até mesmo que o técnico do Sport Profissional encontre na segunda bola uma estratégia de jogo. Por isso, aqui no Sport nós formamos os atletas para qualquer tipo de mercado e estilo de jogo. Eu defendo que as categorias de base brasileiras sejam ricas em conceitos e diversificada ao máximo possível e, além de contar com treinadores acadêmicos, acho interessante ter nas comissões técnicas ex-jogadores para que eles possam contribuir com vivências profissionais. Pois o quanto mais rica forem as experiências que os atletas tiverem contato, mais jogadores com soluções diferentes vamos obter. 

Foto: Torcedores.com
Tem muita gente nas categorias de base se aproveitando da não formação da gestão para fazer coisa em benefício próprio e destruindo a vida de muitos atletas. É uma realidade triste e que continua acontecendo Brasil afora.

A nossa fonte natural de formação de jogadores de futebol (“pedagogia da rua”) está diminuindo. Na sua visão quais seriam as saídas para continuar desenvolvendo e lapidando jovens promessas? E por que?
O nosso maior problema está na gestão. Claro que existem alguns clubes no Brasil que têm uma administração boa, como é o caso do Sport. Mas como um todo, o mal do futebol brasileiro é a gestão. É como um iceberg, só enxergamos a pontinha dele, mas ele é muito maior do que está no nosso campo visual, pois a maior parcela está embaixo d´água. Então sempre achamos que o problema está na tática, na técnica ou no que se está observando. E não é sempre assim. Na hora que a gestão de futebol não entende de formação e de ser humano, ela não pode desenvolver um bom atleta. Porque ela vem com o conhecimento do profissional. E as relações entre futebol profissional e base são quase zero. Pois no profissional trabalha-se um jogador com a formação praticamente completa. Na base procura-se construir e desenvolver o jogador. Para se ter uma ideia, nas categorias de base em alguns momentos é muito melhor a derrota em vez da vitória. Pois a derrota irá trazer ensinamentos que a vitória não traria. Colocar um atleta que é destaque no banco de reservas em um jogo decisivo e, perder para que ele se sinta um pouco culpado pela derrota por ter mostrado uma sucessão de indisciplinas; vai favorecer a formação do caráter dele para que no futuro seja um grande jogador. Mas como estamos focados nos resultados, vamos deixando passar os atos de indisciplinas, deixando os atletas caminharem de qualquer jeito, pois o que queremos é vencer. É bem possível que um clube conquiste títulos, mas não forme ninguém, ou não tenha tantas conquistas e forme 3 ou 4 jogadores para o time profissional. O nosso torcedor não entende isso, pois ele não foi formado para isso. Quando a torcida vem ver um time de base jogar, se a equipe não está vencendo para ele está tudo errado. Mas ele encontra-se com o raciocínio do futebol profissional. Quando se tem um trabalho que vise desenvolver jogadores para o time profissional, para a Europa, seleção Brasileira, e como queremos desenvolver atletas desse nível temos que ficar com a bola por muito tempo. Temos que propor o jogo. E vão acontecer muitos erros ao propor o jogo tendo um jogador imaturo. Mas é justamente isso o diferencial. Pois muitos percebem que vão errar bastante e preferem não ter a bola para vencer. Tem muita gente nas categorias de base se aproveitando da não formação da gestão para fazer coisa em benefício próprio e destruindo a vida de muitos atletas. É uma realidade triste e que continua acontecendo Brasil afora.

Jogo apoiado, aproximação, passes curtos e rápidos, criação de linhas e zonas de passe, superioridade numérica no setor da bola. Qual a importância disso na sua forma de pensar futebol? É algo muito treinado? Como você tem cobrado e estimulado isso com este grupo novo de atletas?
O mais difícil é treinar comportamento para só depois fazer um jogo posicional. Mas não adianta nada desempenhar funções sem que exista o comportamento. Então, treino muito comportamento. Defino comportamento como uma ação padronizada que o atleta realiza, independente da minha presença. Após estabelecidos os comportamentos, há a distribuição de funções defensivas e ofensivas na equipe. Na hora de ensinar futebol, divido nas fases do jogo: organização ofensiva e defensiva. A palavra organização já me diz que a equipe está pronta para realizar algo, ou seja, a organização ofensiva significa que a minha equipe já está toda preparada para atacar. Na defensiva, a equipe está preparada para defender. Além dessas, existem mais três fases: a transição ofensiva, defensiva e a bola parada. Cada semana eu escolho duas fases para treinar. Normalmente escolho organização ofensiva com transição defensiva pois elas têm uma relação intrínseca. Na verdade, tudo acontece ao mesmo tempo no futebol. A gente só separa por uma questão didática. Mas a lógica é mais ou menos a seguinte: ao ter a bola os jogadores têm que responder três perguntas norteadoras, o que fazer? Por que fazer? E como fazer? Nos treinamentos meus zagueiros dificilmente vão dar passes para o lado e para trás, pois eles sentem vergonha e se cobram para que isso não aconteça. Se há um erro de passe, eles precisam ter um comportamento de não recuar, não andar, não reclamar, e sim, de retomar a bola perdida. No futebol brasileiro existe uma cultura inversa, se faz tudo menos recuperar a bola. Recuperando a bola o time tem que tirar a bola da zona de pressão, pois naquele local pós-recuperação é bem possível que esteja com muita gente próximo a bola e se o atleta tentar tocar curto ou driblar, vai ficar no perde-ganha com o adversário. Então, ao recuperar faz o passe para o goleiro e inicia a construção da jogada. Também dou muita ênfase para pressionar o portador da bola, que, nada mais é que um jogador pressiona e os outros fecham as linhas de passe mais próximas. E tudo isso que estou falando é comportamento. E como se treina isso? Com repetições e conscientizações. Em trabalhos analíticos? Não. Em forma de jogo. Normalmente divido os jogadores em três equipes e crio jogos para atingir determinados objetivos. Se quero trabalhar recuperação da bola pós-perda, crio uma situação onde induzo para que haja essa recuperação. Se não há a recuperação a equipe sai e entra outra. Ao treinar, os comportamentos passam a fazer parte do atleta. 

Sua ideia de modelo de jogo exige uma transformação muito grande tanto nos comportamentos individuais como coletivos do elenco rubro-negro. Quais são essas dificuldades neste pouco tempo de trabalho? Aonde acha que a equipe ainda precisa evoluir?
É um período de reformulação, visto que muitos atletas foram para o profissional. E estamos passando por um momento de procura pelo melhor modelo de jogo. Entendo aqueles técnicos que dizem que o modelo de jogo tem que servir aos atletas e não o contrário. Tenho os meus ideais, mas os atletas que tenho não possuem as características que conseguem desenvolver um determinado modelo. Com isso, estou procurando fazer ajustes para continuar sendo ofensivo sem descaracterizar da minha ideia, mas diminuindo o grau de risco assumido. Portanto, o torcedor pode esperar um Sport mais reativo, uma equipe na qual vão se destacar muito mais jogadores de beirada e atletas de armação em detrimento a atletas de terço final de campo. Porque antes o time era muito bom pelo corredor central e, agora a maior força está pelos lados de campo com jogadores de velocidade e de força.


Em cima da sua resposta de que o modelo tem que atender aos jogadores e não ao contrário. Marcelo Bielsa na 2º Semana de Evolução do Futebol Brasileiro realizada pela CBF, afirmou que tenta de todas as formas que os jogadores se adequem ao seu modelo de jogo. Você concorda com essa visão de Bielsa? E se no cenário tão particular como é o Brasil, dá-se para fazer o que ele propõe?
Ele está certo. Eu faço isso sempre e sigo até quando vejo que não dá. Nesses três primeiros meses tentei fazer com que esses atletas jogassem no modelo de jogo que eu gosto. E isso gerou dois empates contra América-PE e o Sub-17 do próprio Sport e percebi que íamos sofrer de mais se continuasse com essa ideia na sua totalidade. No último amistoso, dos 90 minutos, a bola ficava conosco 80 minutos. Mas sempre que chegávamos no terço final as equipes se encontravam muito retraídas e em alguns momentos a minha equipe ofertava o contra-ataque fatal no 1x1. Contra o Vera Cruz acabou o primeiro tempo 2x2 com o Sport muito superior. Desci para o vestiário, conversei com os atletas e disse a eles que iríamos fazer um jogo apenas para vencer. Com isso, recuei as duas linhas de 4 para antes do meio-campo e dei a bola ao adversário. Com 10 minutos do 2º tempo já estava 6x2 para o Sport. Pois o futebol é uma gestão de bola e espaço. E se o time tem a bola o jogo todo, provavelmente irá dar o espaço ao adversário. Ao ter a bola muitas vezes os times acham que estão com o controle da partida, mas não estão. Porque o adversário está controlando o espaço e controlar a bola é mais difícil. E mesmo vencendo e marcando 4 gols os atletas pediram para não jogar dessa forma. Observe o nível de consciência que os atletas estão desenvolvendo nas categorias de base do Sport. E prontamente falei a eles que não vamos jogar dessa forma. Porém eles (jogadores) vão estar treinados para em alguns momentos tirar as equipes da zona de conforto, ou seja, fazer um jogo mais reativo. Então, vou procurar fazer com que os adversários saiam do conforto e depois que fizermos o primeiro gol, a equipe voltará a jogar de acordo com as minhas ideias.

Foto: Reprodução/Guiame
Existem treinadores que acham que o atleta crítico é falta de respeito. Porém, o que é necessário fazer é educar os atletas para eles falarem da forma adequada. Pois muitos por não terem uma boa educação não sabem como falar. E aqui no Sport, eles estão sendo desenvolvidos para serem críticos, realizarem uma análise contrária e tudo isso com respeito ao seu superior. E dou liberdade para eles falarem comigo sobre tática e questionarem sobre a melhor solução.

O futebol é técnico e tático. Mas também é um jogo mental. Como você tem visto o trabalho de ativação cognitiva dos atletas no Brasil? Qual a importância de formarmos jogadores mais inteligentes? E como é esse processo no Sport?
Desde o Sub-13 os meninos aprendem plataformas táticas. Mas quando a gente fala de tática, muitas vezes só lembramos dos números e tática é muito além disso. Estava dando um treinamento nessa semana e na movimentação da plataforma escolhida, os jogadores passaram por vários modelos de jogo. Sempre tive o perfil de inquirir do atleta o conhecimento que ele tem. Nos treinamentos sempre pergunto, por exemplo, se a bola entrar em um setor qual a plataforma para povoar? E eles têm que me responder, pois sem a resposta o treino não continua. Para mim,o atleta tem que mostrar o conhecimento declarativo, pois as vezes eles dizem que sabem, mas não sabem. O meu atleta é acostumado a falar. Eu gosto de atleta crítico. Existem treinadores que acham que o atleta crítico é falta de respeito. Porém, o que é necessário fazer é educar os atletas para eles falarem da forma adequada. Pois muitos por não terem uma boa educação não sabem como falar. E aqui no Sport, eles estão sendo desenvolvidos para serem críticos, realizarem uma análise contrária e tudo isso com respeito ao seu superior. E dou liberdade para eles falarem comigo sobre tática e questionarem sobre a melhor solução. E reunimos o grupo, eles dão o seu ponto de vista e apresento o meu. Infelizmente a gente já vai para as plataformas táticas porque são elas que dão os resultados. Pois o resultado no futebol depende muito da defesa. Se quiser apenas ganhar no futebol, o mais simples a se fazer é marcar. Se um time defender bem fatalmente irá sair vencedor. O meu grande questionamento é: nas categorias de base o que é para ser feito? Se estou no Sport que gasta R$4,5 milhões por ano, o que o clube vai cobrar de mim? Quer que eu forme jogadores medíocres? Ou vai querer que eu forme jogadores de alta qualidade para irem ao profissional, serem vendidos à Europa, jogarem na seleção brasileira? Acredito que a segunda opção. E para formar jogador de altíssima qualidade só existe uma forma: é jogar como os grandes atletas atuam. Com a bola o tempo todo. Perdendo a bola e recuperando rapidamente aonde perdeu. É tendo um time que se arrisca. É tendo uma equipe, na qual os zagueiros se transformam em armadores. É uma equipe que ataca com 7 ou 8 jogadores. É uma equipe que se expõe e que coloca os zagueiros em situações desconfortáveis de mano a mano. Se eu faço com que o meu zagueiro experimente esse tipo de jogo, garanto que quando chegar no profissional dificilmente irá perder no mano a mano, pois ele foi formado para jogar no 1x1. Mas se meu time joga com sobra, formo um zagueiro medíocre, que é acomodado e só vai jogar em time pequeno.  Por isso, afirmo: os atletas hoje estão a mercê da sorte. Pois em que mãos eles vão cair para ser realizada a formação? Pois já houve atletas com potencial de seleção brasileira e nem jogador se transformou. Alcides Scaglia, grande autor do desporto, afirmava que: 'O atleta é fruto de um binômio: potencial e estímulo. Potencial é a capacidade para aprender. E o potencial é representado em recipientes pequenos, médios e grandes'. Se um atleta nasceu no Nordeste com um potencial de recipiente grande. Esse cara tem potencial para jogar no Real Madrid, no Barcelona. Porém são poucos os lugares que ele poderá ter as condições minímas de ter o seu potencial estimulado. E esse jogador vai encher 10% do recipiente e não vai se tornar jogador. Em outro cenário, surge um  atleta no Estado de São Paulo que possui um recipiente pequeno, mas que lá existem 20 clubes que realizam trabalhos dignos na base. Com isso, ele enche o recipiente. E para a nossa tristeza esse vai se tornar jogador, enquanto aquele não. Isso é muito grave! Quantos entendem de formação e estão nela? O buraco do futebol brasileiro é muito grande e profundo, não é como as pessoas estão pensando, que, ao trazer um técnico como Tite tudo vai se resolver. A gente continua formando um Gabriel Jesus, Neymar, Willian, Philipe Coutinho, Daniel Alves, sabe porquê? Pois todos esses possuem uma mente tão forte que eles não se rendem ao sistema, eles vencem o sistema. Eles são jogadores de baixa estatura, são jogadores franzinos e são jogadores muito magros na sua adolescência e, que foram preteridos na base pela maioria dos times. Neymar, por exemplo, era reserva do Sub-13 pois tinha um “grandão” que resolvia o problema. E hoje nós vemos que eles são os nossos melhores jogadores. A gente precisa ter pessoas que queiram discutir seriamente este tema, que queiram respeitar o jovem e respeitar os profissionais que se qualificaram para trabalhar com isso.

O Brasil precisa de técnicos e gestores com conhecimento e coragem para realizar as suas ideias e convicções e, assim, recuperar a essência do futebol brasileiro.

Como o próprio livro do professor Israel Teoldo fala que “O futebol é jogado com ideias”, umas são ricas em conceitos outras são pobres. Qual é o seu conceito de jogo?
Temos que partir dos pressupostos individuais de o que são ideias ricas. Na minha opinião, são as ideias que se propõe a colocar a equipe em situação de risco. São aquelas equipes que se acostumam a assumir os maiores riscos para obter os maiores benefícios que esse esporte pode proporcionar. Pois se o time não se colocar em situação de risco, normalmente não consegue adquirir os benefícios. Aí vem a pergunta por que os torcedores preterem o futebol brasileiro para assistir o europeu? Muita gente fala que é por causa do nível dos nossos jogadores. Não é! Pois constantemente existem jogadores brasileiros atuando nos times europeus. No Brasil, os torcedores se acostumaram a não consumir o bom futebol. Eles já aceitaram a cultura do futebol pobre e se contenta apenas em ganhar. Mas quando se assiste o bom futebol, aquilo lhe atrai. Pois o grau de risco que os times assumem lá fora é muito alto. Pois o zagueiro está na linha de fundo defensiva, o goleiro tocou nele, o volante recebeu na entrada da área, tem aproximação de seus companheiros e joga com um passe por dentro – um passe arriscado e que se perder a bola pode ser fatal. No Brasil o que ocorre é: se um jogador der um passe por dentro o treinador vai dizer ao atleta para não fazer isso e caso ele não obedeça irá sacá-lo do time. Boas ideias normalmente são aquelas que poucos alcançam por não terem coragem ou conhecimento para realizar. No Sport Sub-17, eu tinha jogadores como Juninho, Pardal, Caio, Elias... um time de extrema capacidade técnica, de reter a bola e ao perder recuperá-la imediatamente, as minhas ideias fluíam. No meu time os volantes e meias não armam as jogadas, quem armam são os zagueiros. O restante da equipe se coloca à frente dos zagueiros criando linhas de passes para frente, fazendo com que o meu time seja extremamente ofensivo. Normalmente a torcida vaia uma equipe que realiza passes para trás. E na maioria das vezes a culpa dos passes para trás não é culpa do portador da bola, e sim, dos jogadores que estão sem a bola a não criar as linhas de passes necessárias. O nosso primeiro gol contra o São Paulo marcou bastante. O meu volante entrou na linha dos zagueiros para fazer a saída com 3, recebeu a bola na meia-lua defensiva e realizou um passe vertical de 50m para o círculo central. Esse passe – arriscado - deixou atrás da linha da bola 6 jogadores do São Paulo e teve o benefício do gol. Outra ideia da minha equipe é ter atletas de beirada com características de meia para que eles possam vir para o corredor central, ficando com 2 meias, 2 pontas e 1 atacante neste setor e transformo os meus dois laterais em atacantes. É um jogo que oportuniza aos atletas saberem jogar de fato com a bola, desde o goleiro até o atacante. Com isso, há um desenvolvimento humano geral. O Brasil precisa de técnicos e gestores com conhecimento e coragem para realizar as suas ideias e convicções e, assim, recuperar a essência do futebol brasileiro. As ideias ricas não têm como não virem acompanhadas do alto grau de risco. E Tite aos poucos está resgatando essa identidade, pois a seleção pratica um futebol que me agrada. Ainda não está no nível da seleção de 82, mas está cada vez mais perto. 

Tendo em vista que a realidade do Brasil é de remontar a equipe a cada 6 meses, devido as janelas de transferências, fator esse que dificulta ainda mais o trabalho a longo prazo de um treinador. Qual a sua preferência tática e quais as variações que você aplica ao sistema inicial.
Ofensivamente eu não abro mão da construção com 3 jogadores. Podem ser zagueiros, laterais ou volantes. Em algumas ocasiões eu jogo com 3 zagueiros para dar uma segurança, mas esses zagueiros não têm apenas a função de defender, mas também armar as jogadas. A partir desse princípio basilar, eu tenho uma infinidade de variações táticas e de função. Em algumas partidas meus laterais são volantes, atacantes ou alas; tem jogo que os meias atuam mais avançados ou mais recuados; em algumas ocasiões os pontas jogam por fora ou por dentro; tem jogo que o atacante joga mais enfiado ou vem buscar jogo no meio-campo para fazer triangulações e tem partidas ou momentos do jogo que um dos pontas atua por fora e o outro mais por dentro.... Pois com os 3 eu dou uma maior confiança para os meus times ataquem com 7 jogadores. Além disso, com a saída de 3 a verticalização do jogo é melhor executada. Pois normalmente com a saída com 2, as linhas de passes que mais se oferecem são as dos laterais. Então, o jogo fica muito lateralizado e fica aquele jogo: zagueiro toca no lateral, lateral devolve no zagueiro, que, toca no lateral e o jogo não progride. Defensivamente gosto do 1-4-1-4-1, pois ele oportuniza cinco linhas de marcação. O que permite marcar o adversário com linha alta sem perder compactação. No 1-4-4-2, os times perdem uma linha e se quiserem realizar marcação alta vão gerar espaços nas linhas ou nas costas da defesa. E quando o adversário possui um jogo muito forte pelos lados, eu atuo no 1-5-4-1, pois eu fortaleço as minhas laterais com a diminuição dos espaços e consequentemente gerando superioridade numérica e dificultando o 1x1 do adversário.

Foto:Arquivo Pessoal

O maior aprendizado foi na parte humana. As pessoas que trabalham na Seleção Brasileira têm um nível educacional muito elevado, são pessoas que possuem um compromisso com a ética e com o ser humano.
Recentemente você foi convocado para ser auxiliar técnico da seleção brasileira Sub-17. Como foi a experiência e o que você trouxe de aprendizado?
O maior aprendizado foi na parte humana. As pessoas que trabalham na seleção brasileira têm um nível educacional muito elevado, são pessoas que possuem um compromisso com a ética e com o ser humano. O trato que os treinadores, atletas e supervisores possuem entre si é de um nível que eu nunca tinha presenciado. Um exemplo: nós iríamos começar uma análise técnica e tática de um atleta que esteve nos treinamentos. E neste momento o Supervisor se levantou da mesa e saiu da sala. Eu fiquei sem entender e perguntei ao treinador. Ele me disse que o supervisor entende que esse não é o momento para ele participar. Isso foi incrível. Pois no Nordeste as pessoas não respeitam os limites e adentram na função do outro sem competência.  O segundo ponto foi estar em um ambiente que só via pela televisão. Para mim foi mágico treinar naqueles campos da Granja Comary, conhecer a estrutura do hotel e o dia-a-dia de um jogador e treinador de Seleção. Foi tudo mágico. E por fim, pude ver como a seleção de base tem tratado com seriedade a categoria. Para se ter uma ideia, eles criaram um banco de dados, onde monitoram atletas do Brasil inteiro e geram notas para o atleta que está no banco de dados por cada partida jogada. Se um atleta de base do Sport que está no banco de dados e vai jogar pelo clube, a CBF envia alguém para assistir ao jogo e lançar uma nota. Essa nota vai sendo gerada e vai se formando uma classificação que começa no A e vai até o D.
Você nos mostra ser um profissional muito esclarecido e estudioso. Quais são suas referências? Da onde vêm suas inspirações para esse modelo de jogo?
Inicialmente tenho duas referências: Choquito e Marcelo Ribeiro. Eles me estimularam e ensinaram a enxergar o jogo de forma diferente. No futebol de campo tenho três referências: Uma nacional, Fernando Diniz e as internacionais com Pep Guardiola e Jorge Sampaoli. Eu tento trazer essas ideias que via antigamente e que hoje são reproduzidas por Pep Guardiola. Para mim é vergonhoso e é um tapa de luva de pelica que ele nos dá, ao mostrar que é possível praticar um futebol que a gente deixou para trás por falta de coragem nossa.

Qual liga no mundo você gosta mais de assistir? Existe um campeonato que te atrai mais? Por que?
O futebol que mais gosto de assistir é o espanhol, porque normalmente é um futebol vistoso. Tanto é que na seleção do mundo os 10 jogadores são do futebol hispânico e isso diz muito sobre aonde está a qualidade de um bom jogo. E o futebol Italiano, Inglês, Alemão são ligas competitivas, mas que não tenho tanta admiração. Entretanto, assisto porque existem aspectos interessantes que posso aprender. Mas quando quero assistir um jogo para me satisfazer, vejo a La Liga. A Premier League tem chamado a minha atenção ultimamente, devido a chegada de Pep Guardiola e por ele querer implantar um futebol diferente do que é praticado na cultura inglesa. No Brasil gosto de assistir as equipes dirigidas por Roger Machado, que, hoje está no Atlético Mineiro. E tenho gostado da Seleção Brasileira.
  
Após o 7 a 1, muito se cobrou dos técnicos para que houvesse uma atualização, busca por conhecimento seja por cursos ou intercâmbios em outros clubes. E emergiu duas correntes de técnicos no futebol brasileiro: acadêmicos e empíricos. Existe a necessidade de atualização? Por que?
Temos que voltar a um tema principal: as ideias. Se a ideia for apenas vencer um jogo de futebol, não necessariamente precisa de estudo. Pois o futebol é propício para nivelar por baixo. Tanto é que no basquete, handebol e vôlei não há zebras, por que? Pois normalmente não tem jeito de você distanciar o bom jogador da meta nesses esportes. No basquete, quando recua vai-se para a entrada do garrafão e fatalmente um jogador bom vai acertar uma cesta de 3 pontos. No handebol, se defende muito próximo da meta, e você sofrendo um gol vai ter que sair. No futebol, não é assim.  É bem possível que muitos treinadores que não estudam ganhem e percam e os que estudam ganhem e percam também. Se for só pelo resultado não precisa estudar. Porém, para desenvolvimento do ser humano, desenvolvimento da estética do jogo e o espetáculo que se chama futebol, é condição sine qua non (indispensável) estudar. Pois se não estudar, o futebol vai ser transformado em um jogo muito pobre. Mas não me surpreendo com esses treinadores brasileiros que não estudam e continuam ganhando. Pois entendo a essência do futebol. Futebol é um jogo que nivela por baixo, as regras dele são para isso. Em decorrência disso, o brasileiro é obrigado a ter uma TV por assinatura para assistir a jogos de boa qualidade. Nós estamos afastando o nosso torcedor. Tenho ouvido muitos torcedores falarem que não assistem ao jogo do time de coração e só querem saber do resultado, porque nesse horário irá ter jogo do Milan, Real Madrid, Barcelona.... Isso para mim é de uma tristeza sem tamanho. Por isso, enquanto a gente tiver treinador que não se capacita e apenas garante a sua competência pelo resultado, vai ser difícil. Além disso, a mídia tem um papel preponderante na manutenção desse modelo arcaico ao analisar que quem ganha é bom e quem perde é ruim. A crítica não devia ser em cima disso, e sim, em cima da performance para que possamos ter o estádio cheio, atrair investidores e para que percamos jogadores mais tardiamente.

Foto:Fernando Dantas/Gazeta Press

Para mim o melhor treinador do Brasil é Fernando Diniz.
 Pois ele fez o diferente. Ele pode ter sido rebaixado com o Audax, quase foi rebaixado com o Oeste, mas ele se arrisca. Ele pega um time pequeno e faz jogar como grande, quem faz isso? 
Quem é o melhor treinador do Brasil? E por que?
Para mim o melhor treinador do Brasil é Fernando Diniz. Pois ele fez o diferente. Ele pode ter sido rebaixado com o Audax, quase foi rebaixado com o Oeste, mas ele se arrisca. Ele pega um time pequeno e faz jogar como grande, quem faz isso? Não existe. Conseguiu ser vice-campeão Paulista jogando como grande, tendo mais posse de bola que Palmeiras, Corinthians e São Paulo. No jogo contra o Santos, foi diferente por ter um treinador experiente e entendeu que para ganhar do Audax precisava baixar as linhas. Mesmo tendo no time Lucas Lima, Renato, Gabigol, Marquinhos Gabriel, Geuvânio, Dorival baixou as linhas para jogar com o Audax repleto de jogadores desconhecidos. Isso foi incrível. E ele só foi rebaixado, devido ao grande risco que assumia e também porque as equipes entenderam que se jogar contra o Audax futebol de verdade iriam se dar mal. Fernando Diniz é comprometido com o espetáculo, ele é comprometido com as pessoas que assistem e pagam ingresso, é comprometido com os jogadores no que se refere a desenvolve-lo como ser humano. E ele enfrenta vários treinadores que não são comprometidos com ninguém, a não ser o próprio umbigo. Imagino o que ele está sofrendo e torço para que ele não abandone essas ideias, pois ele tem me inspirado todos os dias.

Um dos efeitos do 7 a 1 foi a exigência maior para que profissionais da imprensa também se reciclassem e buscassem entender melhor o funcionamento do futebol. Você acredita que isso é positivo? Por quê?
O que a gente precisa é que a mídia faça cursos e se aperfeiçoe. Pois se o profissional discute com o torcedor e eles se mantêm na mesma plataforma tem algo errado. Porquanto se um torcedor consegue entrar em um nível de discussão e se manter, a pessoa (jornalista) tem que voltar a ser torcedor. Porque um profissional de futebol tem que falar em um nível de futebol que ele não entenda, não veja e fique admirado ao assistir o mesmo jogo e não conseguir enxergar as nuances presentes em uma partida de futebol.

Em sua matriz o torcedor é passional. Mas você acredita que se o torcedor buscar ferramentas, blogs, sites que ensinem e elucidem o funcionamento do jogo facilitaria para que não houvesse uma cultura tão massificada de resultados e, consequentemente evitaria uma cobrança desmedida nos gestores o que privilegiaria trabalhos à longo prazo?
Eu acho que a gente não precisa mudar o torcedor. Futebol é emoção e se a gente tirá-la, ele vai acabar. O que a gente não pode é ter gestores, treinadores e atletas com esse pensamento. Pois se você é profissional, não se admite ser torcedor. O que temos no Brasil são torcedores que assumem uma vaga de diretor e por não saber o que está acontecendo realiza o trabalho mais prático. Por exemplo, já que está dando tudo errado eles demitem o treinador para criar um fato novo e dar uma resposta a torcida. Então, o problema não está no torcedor, e sim, com aqueles que trabalham com futebol. Quando o resultado não vem e se faz uma análise, observasse que o problema não está apenas no treinador, pode estar na gestão, nos atletas, na estrutura, no alto grau de competitividade... existem uma infinidade de variáveis e para conhece-las é preciso estudar para não simplificar um problema que é muitas vezes complexo. No futebol se contrata profissionais pelo resultado. Muitas vezes eu tenho um time que propõe, mas eu contrato um técnico que foi campeão com uma equipe que não tinha a bola.  E depois vem a pergunta: por que não deu certo? Pois ele só sabia jogar com time que não tinha a bola. E era para ter sido feita uma análise antes do perfil do treinador e do seu time. Com jogador é a mesma coisa. Contrata-se um jogador que se destaca em um time que não tinha a bola – onde ele era beneficiado pela regra do jogo, em decorrência dos adversários sempre se expor contra o time dele e ele sempre pegava a bola em progressão de velocidade e agora o atleta tem que jogar em um time que propõe, jogar entrelinhas.... Mas para jogar entrelinhas tem que ser inteligente. Não é força e velocidade, é inteligência de jogo.

O que é a teoria de Robin Hood?
É uma teoria que criei e explica didaticamente a essência do jogo de futebol e mostrar o porquê de não existir zebra nesse esporte. Pois de acordo com o meu estudo é a única modalidade que não pode ter zebra. Pois se o esporte foi construído para que ocorresse isso em grande número não é zebra. O futebol é um esporte de erro. Pois se erra infinitamente mais do que se acerta, tanto que é um jogo que tende ao zero a zero. E na teoria que desenvolvi explica um pouco, pois o futebol é um jogo feito para que as equipes inferiores ou com poucos recursos financeiros, ganhe ou tenha competitividade. É o único esporte que privilegia o pobre. Porque é um jogo que se desenvolve em um campo de extensão grande, com metas distantes e que consequentemente a bola vai ficar em condições de ser chutada pouquíssimas vezes. E para agravar ainda mais, esse jogo é composto por 22 jogadores o que aumenta em proporções consideráveis a possibilidade de a bola não chegar em condições de ser finalizada a meta. Além disso, é um esporte jogado com os pés o que não favorece o controle do implemento e por isso favorece ao maior número de erros. E para piorar, tem a regra do impedimento que afasta a bola da meta. E um agravante nas categorias de base são campos de areia ou muito irregulares, onde a bola fica viva e dificulta o domínio. Dentro dessa plataforma, se um time pequeno se organizar com apenas jogadores medianos a tendência é que ele saia vencedor.



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