Fruto da
revolução industrial, o futebol foi um dos vários resultado, dessa revolução, a rápida
urbanização da Inglaterra, país berço do futebol, que entre meados de 1760 e
1820 ocasionou um enorme êxodo, as pessoas tiveram de sair de suas aldeias, onde
praticavam esportes (futebol primitivo, caça, adestramento de cães), viviam e trabalhavam
artesanalmente, e partiram rumo a cidade conseguir emprego em alguma
industria. Ao chegar à cidade, se deparam com jornadas de 80 horas de trabalhos
semanais, locais insalubres de trabalho como as minas de carvão e baixos
salários, o lazer
torna-se algo raro. Surge então a necessidade de achar um tipo de distração que
abrangesse essas pessoas, à época a população de Londres que até a revolução industrial
era de 800 mil pessoas, passou para 5 milhões em 1880. E foi dentro dessa
necessidade que o futebol ganhou força, um lazer
que conseguia atender a todos os requisitos de uma classe, que com pouco tempo
e dinheiro poderia dispor, uma distração que instigava a atividade física, coletiva,
sem regras e de fácil acesso para sua prática.
Quando começou a ser praticado, nas escolas da burguesia
britânica, ainda eram considerados esporte populares e violentos, fazendo com
que esses colégios proibissem sua prática, juntamente com o Rugby que também
emergia. A medida no entanto não obteve êxito, pois os alunos continuavam
praticando e o futebol se popularizou deixando o ambiente escolar se
disseminando por entre os trabalhadores.
Historicamente o futebol sempre foi um esporte intimamente
ligado as camadas mais populares e se transformou numa das principais formas de
distração do operariado inglês e posteriormente o esporte mais praticado do
mundo, justamente pelo seu caráter popular que tem desde o início, a ponto do
historiador Eric Hobsbawn
(1987) classificar o futebol como "a religião leiga da classe operária. As elites não viam com bons olhos esportes como o
futebol, demonstravam mais apreço pela esgrima, equitação e caça por exemplo. Tinham
o futebol como esporte praticado apenas por pessoas sem cultura, além de muito violentos
e bárbaros, que de certa forma era, pois os mesmos que o praticavam, viam
justamente nesse esporte uma maneira de extravasar todo o estresse do trabalho
e como ainda não havia regras, virava quase um “vale-tudo” que acabava por se
tornar bastantes violentos.
O tempo ia passando, o operariado inglês consolidado, criava
consciência de classes, e os horários livres conquistados neste processo, eram
usados principalmente para praticar esses jogos. Entretanto a violência desse
esporte acabava por ocasionar várias lesões, cansaço físico, uma preocupação
para a classe patronal, pois isso fazia com que a produção dos trabalhadores
caísse, prejudicando seus lucros. Então, imediatamente a classe burguesa
industrial junto ao estado, no intuito de deixar os jogos menos violentos,
conseguiu regulamentar o esporte, criando regras, trazendo o futebol para
dentro da esfera do estado. A regulamentação do futebol tornou-lhe de vez em um
esporte de massa, mas por outro lado, agora nas mãos da burguesia, começou a se
tornar um meio de despolitização das massas, justamente num momento em que a
classe operária vinha num processo gradativo de conscientização de classes. Foi
devido a regulamentação que se iniciou o processo de transição do amadorismo
para o profissionalismo do esporte, ou seja, burguesia consegue mudar a
mentalidade em relação ao esporte, que deixa de ser tratado como atividade de
lazer ligada a melhoria da condição física e mental do individuo e passa a ser
tratado na condição a mercadoria. Mudam inclusive as relações de trabalho, os
primeiros times que surgiram eram formado pelas fábricas do país e os jogadores
eram os próprios funcionários das empresas, emerge também a figura do operário-jogador
quando trabalhadores eram contratados para trabalhar e jogar pelo time da
fábrica, muitas vezes contratados por conta mais da sua habilidade mostrada em
campo do que pela sua eficiência na indústria, como o caso da Blackburn
Olympic, fundado por Sidney Yates, dono de uma fundição de ferro no norte da Inglaterra,
primeira equipe do norte da Inglaterra e primeira composta apenas por
trabalhadores a vencer um torneio, a FA-CUP de 1983.
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| Time do Blackburn Olympic, primeiro composto apenas por trabalhadores, campeões de um campeonato na Inglatera |
Quando o futebol
chegou ao Brasil por Charles Muller, o esporte ganhou força por conta apoio dos
patrões que o viam como mecanismo de controlar seus funcionários, no entanto
estes times logo seriam marcados por seu perfil democrático, que contrastava
com o padrão imposto pela sociedade altamente segregacionista da época, pode se
dizer que o processo de proletarização do futebol brasileiro teve início,
graças aos times de fábricas, a partir daí o
esporte deixou de ser algo branco e aristocrático, para se tornar mestiço,
popular e vibrante, marcando o início de um futebol puramente brasileiro.
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| Torcida do Club Africain levanta faixa fazendo alusão ao futebol " Criado pelos pobres, roubado pelos ricos". Faixa que se fosse no Brasil, provavelmente teria sido proibida de entrar |
Se historicamente o futebol sempre esteve unido à classe
operária, hoje ele se encontra em um temeroso processo de afastamento, a “gourmetização”
do futebol, tem conseguindo distanciar dos estádios o que em quase 200 anos de
futebol, nada conseguiu fazer, que foi tirar as classes populares das
arquibancadas. Na Tunísia, a torcida do Club
Africain, em um amistoso contra o PSG, (time que é o maior símbolo desta
gourmetização, comprado pelo grupo Qatar Investiment Authority, tendo como presidente,
o empresário qatariano, Nasser Al-Khelaifi, que transformou o time em uma
potência européia), levantou uma faixa com os dizeres “created for the poor,
stolen by the rich” , "criado pelos pobres, roubado pelos ricos", outro protesto
aconteceu por parte da torcida do Liverpool em jogo em casa contra o Sunderland, aos 32
minutos do 2º tempo os torcedores começaram a deixar as arquibancadas em
protesto ao preço 77 libras, (R$ 436), cobrados pela diretoria do clube, detalhe que no momento em que
os torcedores saíam, o Liverpool vencia por 2x0 e logo depois em 8 minutos
sofreu o empate em casa.
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| Torcida do Liverpool protesta pelo preço dos ingressos |
Fatores como o alto valor dos ingressos, da comida dentro do
estádio, a elitização das arenas, o mercado altamente inflacionado dos
jogadores medianos, ganhando absurdos de dinheiro, são alguns dos motivos para
esse afastamento das massas, que sempre foram os mais próximos
do esporte, tem causado esse distanciamento, logo do futebol a válvula de
escape das classes operárias, e o esporte perdendo o que tinha de melhor, que era a magia das arquibancadas. A gourmetização do futebol, tira a identidade do esporte, são conseqüências do que chamamos de futebol moderno, onde faixas, bandeiras, instrumentos de som e até
mesmo papel picado, tem perdido espaço para as celulares com câmera, cadeiras
reclinadas e acesso a internet, numa infeliz elitização do futebol, que não
respeita a cultura e diversidade das arquibancadas, distanciando-se de quem o
fez chegar até aqui, as massas. A esperança então sobra no espírito popular e
tradicional do futebol que vai resistir a todos os danos que a modernidade trouxe e tenderá a voltar para a massa que sempre esteve ao seu lado.