O futebol ao proletário

sábado, 8 de abril de 2017

Fruto da revolução industrial, o futebol foi um dos vários resultado, dessa revolução, a rápida urbanização da Inglaterra, país berço do futebol, que entre meados de 1760 e 1820 ocasionou um enorme êxodo, as pessoas tiveram de sair de suas aldeias, onde praticavam esportes (futebol primitivo, caça, adestramento de cães), viviam e trabalhavam artesanalmente, e partiram rumo a cidade conseguir emprego em alguma industria. Ao chegar à cidade, se deparam com jornadas de 80 horas de trabalhos semanais, locais insalubres de trabalho como as minas de carvão e baixos salários, o lazer torna-se algo raro. Surge então a necessidade de achar um tipo de distração que abrangesse essas pessoas, à época a população de Londres que até a revolução industrial era de 800 mil pessoas, passou para 5 milhões em 1880. E foi dentro dessa necessidade que o futebol ganhou força, um lazer que conseguia atender a todos os requisitos de uma classe, que com pouco tempo e dinheiro poderia dispor, uma distração que instigava a atividade física, coletiva, sem regras e de fácil acesso para sua prática.


Quando começou a ser praticado, nas escolas da burguesia britânica, ainda eram considerados esporte populares e violentos, fazendo com que esses colégios proibissem sua prática, juntamente com o Rugby que também emergia. A medida no entanto não obteve êxito, pois os alunos continuavam praticando e o futebol se popularizou deixando o ambiente escolar se disseminando por entre os trabalhadores.

Historicamente o futebol sempre foi um esporte intimamente ligado as camadas mais populares e se transformou numa das principais formas de distração do operariado inglês e posteriormente o esporte mais praticado do mundo, justamente pelo seu caráter popular que tem desde o início, a ponto do historiador Eric Hobsbawn (1987) classificar o futebol como "a religião leiga da classe operária. As elites não viam com bons olhos esportes como o futebol, demonstravam mais apreço pela esgrima, equitação e caça por exemplo. Tinham o futebol como esporte praticado apenas por pessoas sem cultura, além de muito violentos e bárbaros, que de certa forma era, pois os mesmos que o praticavam, viam justamente nesse esporte uma maneira de extravasar todo o estresse do trabalho e como ainda não havia regras, virava quase um “vale-tudo” que acabava por se tornar bastantes violentos.

O tempo ia passando, o operariado inglês consolidado, criava consciência de classes, e os horários livres conquistados neste processo, eram usados principalmente para praticar esses jogos. Entretanto a violência desse esporte acabava por ocasionar várias lesões, cansaço físico, uma preocupação para a classe patronal, pois isso fazia com que a produção dos trabalhadores caísse, prejudicando seus lucros. Então, imediatamente a classe burguesa industrial junto ao estado, no intuito de deixar os jogos menos violentos, conseguiu regulamentar o esporte, criando regras, trazendo o futebol para dentro da esfera do estado. A regulamentação do futebol tornou-lhe de vez em um esporte de massa, mas por outro lado, agora nas mãos da burguesia, começou a se tornar um meio de despolitização das massas, justamente num momento em que a classe operária vinha num processo gradativo de conscientização de classes. Foi devido a regulamentação que se iniciou o processo de transição do amadorismo para o profissionalismo do esporte, ou seja, burguesia consegue mudar a mentalidade em relação ao esporte, que deixa de ser tratado como atividade de lazer ligada a melhoria da condição física e mental do individuo e passa a ser tratado na condição a mercadoria. Mudam inclusive as relações de trabalho, os primeiros times que surgiram eram formado pelas fábricas do país e os jogadores eram os próprios funcionários das empresas, emerge também a figura do operário-jogador quando trabalhadores eram contratados para trabalhar e jogar pelo time da fábrica, muitas vezes contratados por conta mais da sua habilidade mostrada em campo do que pela sua eficiência na indústria, como o caso da Blackburn Olympic, fundado por Sidney Yates, dono de uma fundição de ferro no norte da Inglaterra, primeira equipe do norte da Inglaterra e primeira composta apenas por trabalhadores a vencer um torneio, a FA-CUP de 1983.

Time do Blackburn Olympic, primeiro composto apenas por trabalhadores, campeões de um campeonato na Inglatera

Quando o futebol chegou ao Brasil por Charles Muller, o esporte ganhou força por conta apoio dos patrões que o viam como mecanismo de controlar seus funcionários, no entanto estes times logo seriam marcados por seu perfil democrático, que contrastava com o padrão imposto pela sociedade altamente segregacionista da época, pode se dizer que o processo de proletarização do futebol brasileiro teve início, graças aos times de fábricas, a partir daí o esporte deixou de ser algo branco e aristocrático, para se tornar mestiço, popular e vibrante, marcando o início de um futebol puramente brasileiro.

Torcida do Club Africain levanta faixa fazendo alusão ao futebol " Criado pelos pobres, roubado pelos ricos". Faixa que se fosse no Brasil, provavelmente teria sido proibida de entrar

Se historicamente o futebol sempre esteve unido à classe operária, hoje ele se encontra em um temeroso processo de afastamento, a “gourmetização” do futebol, tem conseguindo distanciar dos estádios o que em quase 200 anos de futebol, nada conseguiu fazer, que foi tirar as classes populares das arquibancadas. Na Tunísia, a torcida do Club Africain, em um amistoso contra o PSG, (time que é o maior símbolo desta gourmetização, comprado pelo grupo Qatar Investiment Authority, tendo como presidente, o empresário qatariano, Nasser Al-Khelaifi, que transformou o time em uma potência européia), levantou uma faixa com os dizeres “created for the poor, stolen by the rich” , "criado pelos pobres, roubado pelos ricos", outro protesto aconteceu por parte da torcida do Liverpool em jogo em casa contra o Sunderland, aos 32 minutos do 2º tempo os torcedores começaram a deixar as arquibancadas em protesto ao preço 77 libras, (R$ 436), cobrados pela diretoria do clube, detalhe que no momento em que os torcedores saíam, o Liverpool vencia por 2x0 e logo depois em 8 minutos sofreu o empate em casa.

Torcida do Liverpool protesta pelo preço dos ingressos

Fatores como o alto valor dos ingressos, da comida dentro do estádio, a elitização das arenas, o mercado altamente inflacionado dos jogadores medianos, ganhando absurdos de dinheiro, são alguns dos motivos para esse afastamento das massas, que sempre foram os mais próximos do esporte, tem causado esse distanciamento, logo do futebol a válvula de escape das classes operárias, e o esporte perdendo o que tinha de melhor, que era a magia das arquibancadas. A gourmetização do futebol, tira a identidade do esporte, são conseqüências do que chamamos de futebol moderno, onde faixas, bandeiras, instrumentos de som e até mesmo papel picado, tem perdido espaço para as celulares com câmera, cadeiras reclinadas e acesso a internet, numa infeliz elitização do futebol, que não respeita a cultura e diversidade das arquibancadas, distanciando-se de quem o fez chegar até aqui, as massas. A esperança então sobra no espírito popular e tradicional do futebol que vai resistir a todos os danos que a modernidade trouxe e tenderá a voltar para a massa que sempre esteve ao seu lado.




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