Opinião: Caso "Rodrigo Caio", como não cair no esquecimento?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Na partida entre São Paulo e Corinthians, houve um lance que repercutiu mais que o próprio resultado da partida. Aos 40 minutos do primeiro tempo, Rodrigo Caio assumiu ter sido o responsável por um toque na coxa do goleiro Renan Ribeiro e livrou o rival Jô de um cartão amarelo que o tiraria do jogo da volta. O lance rendeu muitos elogios por parte da imprensa esportivas, torcedores de outros clubes, e inclusive do atacante Jô (que na primeira rodada do campeonato paulista sofreu um penalty duvidoso, e perguntado pelo repórter se "Foi pênalti ou malandramente?" Jô respondeu, sorrindo: "Os dois um pouquinho. Tem que ser sincero" na vitória do Corinthians sobre o São Bento), que parabenizou o zagueiro, mas em nenhum momento falou que o empurrou causando o choque do zagueiro com o goleiro, por outro lado houve uma certa descontentamento por parte de companheiros de equipe, do treinador Rogério Ceni e de partes da própria torcida.

Foto:  Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Mas por que uma atitude como esta, ganhou tanta repercussão e rasgados elogios por parte da imprensa e torcedores, que embora não economizem elogios ao atleta, se calam ante vários outros episódios nada honestos dentro do esporte e fora dele, como por exemplo: quando um dirigente de um clube se alia a federação a troco de regalias, quando o clube sonega renda dos jogos, as federações que todo ano rasgam o estatuto do torcedor que determina que o regulamento se mantenham por pelo menos 2 anos consecutivos. Quantos tocam nessa ferida? Discutir o caso “Rodrigo Caio” não implica em criticar o atleta, que sem dúvidas teve uma atitude honestíssima, e do ponto de vista ético, a atitude foi perfeita, no entanto no futebol existe todo um entorno do contexto, em relação ao jogador (que é o que tem que tomar decisão mais rápida e ainda mais sobre pressão de todos que estão envolvidos no jogo), que não pode ser ignorado como, a relação jogador-torcida, jogador-time adversário, jogador-companheiros de time, jogador-diretoria.

O campeonato pernambucano de 2012 é um dos mais fiéis retratos que exemplifica o contexto ao qual estamos falando. Em 2012, no clássico entre Náutico e Santa Cruz nos Aflitos, o resultado final de 2x2 foi devido a um pênalti inexistente marcado a favor do Náutico aos 47 minutos do 2º tempo, também nas semifinais daquele ano, Sport e Náutico se enfrentavam nos Aflitos, quando o jogador Renê do Sport que já tinha cartão amarelo deu um carrinho criminoso, digno de outro cartão amarelo,  que acarretaria sua expulsão aos 19 minutos do 1º tempo, que não foi aplicado pelo árbitro, tendo obrigado Mazola, a substituir imediatamente o lateral. Na final do campeonato do mesmo ano, Sport e Santa Cruz se enfrentaram na Ilha do retiro, quando Branquinho totalmente impedido faz o primeiro gol da partida, que terminaria vencida pela equipe coral por 3x2 e com o título.


Em comum todos os clubes vieram a ser beneficiados e prejudicados, no entanto, as diretorias dos clubes reclamaram quando foram prejudicadas e nada relativo quando foram beneficiados, os torcedores que fazem parte desse entorno, da mesma forma comemoraram o resultado mesmo sendo injustamente beneficiados e reclamaram quando prejudicados. O que aconteceu? Nada! Ficou por isso mesmo. Será que não soa um pouco injusto, cobrar uma atitude ilibada apenas dos atletas? E isso não é uma particularidade do futebol, nas modalidades olímpicas, MMA inúmeros são os casos de doping, na fórmula 1, as equipes tentam burlar o regulamento desde 1950, e tudo forma deliberada com intenção de tirar vantagem. A verdade é que o esporte sempre esteve marcado por atitudes desonestas, baixas onde na maioria das vezes a lógica que prevalece é a dos “meios justificam os fins”, um vale tudo pelo resultado final.

O esporte e em especial o futebol que além de ser um esporte coletivo se difere de outros pelo seu fanatismo e uma demasiada pressão externa, envolve uma série de questões que impossibilitam fazer analogias como alguns vem fazendo por exemplo com a situação política que o país atravessa e comparações com situações do cotidiano e rotulando de desonesto os jogadores que em frações de segundos, decidiram por não tomar decisão que o Rodrigo Caio tomou. Um exemplo disso é o jogador italiano Paollo Di Canio, que era idolatrado por torcedores da ala de ultradireita da Lázio, que quando atuava, comemorava alguns dos seus gols com a saudação nazista( jogador que tinha simpatia por Mussoline e ostentava uma tatuagem em homenagem ao mesmo) e quando perguntado sobre suas comemorações o mesmo afirmou “Sou fascista, mas não racista”, jogador este que quando atuou pelo West Ham da Inglaterra ganhou o prêmio Fair play, por ter protagonizado um lance marcante, em que o goleiro da equipe do Toffees, Paul Gerrard, lesionou-se e o atacante, que já estava de frente para o gol, pegou a bola e interrompeu o jogo para que o atleta rival fosse atendido, veja, o mesmo jogador que se denominava um fascista...

Por isso que é preciso não confundir as duas coisas, ou seja, uma atitude honesta no futebol, ou desonesta, não configura como uma pessoa ser honesta ou não fora dele, onde as tensões acabam inferindo na reação do atleta como incertezas se o ato de honestidade terá retribuição quando o lance acontecer a seu favor, e a própria arbitragem que por um erro mesmo sem intenção, pode pôr tudo a perder e o atleta se sentir injustiçado por ter agido de maneira ética. A pergunta é, será que todos que estão inseridos no contexto do esporte, estão preparados para que atitudes como esta se tornem corriqueiras? Os cartolas, as federações, a imprensa, os jogadores e até os próprios torcedores, de demonstrar o espirito esportivo que o Rodrigo Caio demonstrou? Caso contrário, este foi um ato que tende a cair infelizmente no esquecimento. 

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