A partida entre Danúbio-URU x Sport foi uma partida histórica, marcava a volta de um clube pernambucano após 62 anos, ao monumental estádio Centenário, palco da primeira final da Copa do Mundo em 1930. A partida que foi vencida por 3x0 pelo Danúbio, mas acabou com a classificação rubro-negra numa noite inspirada do goleiro Magrão que classificou o leão para a próxima fase da Copa Sul-americana nos pênaltis.
Mesmo com uma emocionante passagem de fase, a torcida do Sport a principio não teve muito o que comemorar, o ingresso pro torcedor leonino custou absurdos 2.300 pesos, algo em torno de 261 reais, enquanto a torcida do clube mandante pagou pelo mesmo setor 200 pesos, equivalente a 20 reais na nossa moeda. Essa é uma pratica abusiva que no Brasil também é recorrente, torcedores de clubes rivais pagam pelo mesmo setor, preços bem maiores como forma de tirar vantagem, ou simplesmente afastar o torcedor rival, como se tal medida pudesse interferir no resultado. Por muito tempo essa prática passou como algo natural, até que tal medida começou atingir a todos, ou seja, ingresso caro para todos os torcedores visitantes ou não. A elitização das novas arenas, também veio como um tiro certeiro nos torcedores mais humildes que viram uma diferença discrepante no preço dos ingressos, em 2014 os ingressos para jogos nas novas arenas chegavam a ser mais de 100% mais caros que nos demais estádios.
Em uma pesquisa divulgada no site da revista Época, o professor brasileiro de administração esportiva, Oliver Seitz da University College of football Business de Londres, mostrou que em 2015 o Brasil era o país com os ingressos mais inacessíveis do mundo, em média um torcedor teria que trabalhar 11 horas semanais para conseguir ter entrada em todos os jogos do seu time no campeonato brasileiro, para se ter uma ideia, na França um trabalhador teria de trabalhar cerca de 02h:36 minutos para ir a todos os jogos do PSG, e um espanhol que torce para o Barcelona teria de trabalhar 06h:42 minutos para ir a todos os jogos do seu time na La Liga. A conta feita foi a seguinte: Divide-se o salário mínimo pela carga horária de trabalho de cada país, e depois pelo preço do ingresso mais baixo disponível.
No Brasil a realidade já está um pouco diferente, os preços estão mais baixos, mas não pela boa vontade dos nossos cartolas, mas por conta da crise econômica, e pela incompetência dos consórcios em administrar as arenas que com preços altíssimos nos tíquetes, não souberam lhe dar com a instabilidade econômica do país, causando desistência de vários desses consórcios passando a administração em alguns casos para os clubes e em outros ficou para os estados. Na Inglaterra, país onde os ingressos são reconhecidamente caros, torcedores de vários clubes como do Liverpool, Arsenal e Chelsea se mobilizaram e pressionaram os cartolas da Premier League para baixar o valor dos ingressos para os setores de torcida visitante e depois de muitos protesto conseguiram vitória, fazendo com que a cúpula da Premier League pusesse um teto de 30 libras para o torcedor visitante pelas próximas 3 temporadas. Um grande exemplo de como a pressão popular, pode sim, dar resultados.
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| Foto: Reuters / Protesto contra preço dos ingressos da torcida do Liverpool |
Essas manifestações na Inglaterra por exemplo, mostram como as feitas aqui contra a elitização desse esporte que historicamente sempre esteve ligado as classes mais humildes e todas as tentativas contra tornar o futebol um espetáculo para um minoria privilegiada também são legítimas. A visão liberal de oferta e demanda, como justificativa de que o alto preço dos tíquetes, é devido a alta procura pelo esporte que vê o torcedor apenas como um cliente, é na verdade o principal motivo desta gourmetização do futebol, que se concretiza como um verdadeiro crime contra os mais pobres, excluindo torcedores dos estádios. Cabe lembrar que esta camada da sociedade, é a responsável por fazer o futebol chegar aqui até hoje, tanto no Brasil, quanto no mundo, quando ainda no início os clubes eram basicamente formados por trabalhadores de usinas, no pouco tempo livre de trabalho, um lazer barato de fácil acesso e coletivo.
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| Foto: Reinaldo Canato/UOL |
É preciso mais que tudo, entender que o futebol antes de um bem mercadológico, é um bem cultural, e para que continue a ser, é de extrema importância manter o caráter popular do esporte, que só assume esse cunho de mercadoria nessa lógica do capital que vivemos, causador desse imenso mal ao esporte, que é a exclusão das camadas populares dos estádios. Por isso a vitória do torcedor inglês que protestou e conseguiu fazer com que a cúpula da Premier League estabelecesse o teto no valor dos ingressos, mostrou que além de justa, a causa pode e deve servir de inspiração também para torcedor brasileiro.









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